“Os que fracassam ao triunfar”, Freud 1916

Freud descreve o fenômeno dos “que fracassam ao triunfar” (Die am Erfolge scheitern) em seu ensaio de 1916. Trata-se de uma dinâmica psíquica onde a realização de um desejo há muito esperado — como um sucesso profissional ou um casamento — desencadeia, paradoxalmente, um colapso emocional, depressão ou autossabotagem.

O filme dinamarquês “Um Homem de Sorte” (Lykke-Per, 2018), baseado no clássico de Henrik Pontoppidan, é um dos estudos de caso cinematográficos mais precisos sobre essa tese.

O Conceito Freudiano

Para Freud, o sucesso pode se tornar insuportável quando é percebido pelo inconsciente como a realização de um desejo proibido (frequentemente ligado ao complexo de Édipo). O indivíduo sente que “não tem permissão” para superar o pai ou para ser mais feliz que os seus antepassados.

  • O conflito: A instância interna (superego) pune o sujeito pelo êxito, transformando a vitória em uma fonte de angústia e punição.
  • O mecanismo: O fracasso externo atua como um alívio para a culpa interna.

A Conexão com “Um Homem de Sorte”

O protagonista, Per Sidenius, é a personificação dessa autossabotagem. Ele é um jovem engenheiro brilhante que busca romper com sua família religiosa e rígida para conquistar o mundo moderno e tecnológico.

1. A Rejeição das Raízes

Per foge do determinismo familiar, mas carrega o “fantasma” do pai. Ao longo do filme, ele recebe oportunidades de ouro:

  • Um projeto de engenharia revolucionário.
  • A entrada em uma família influente e rica.
  • O amor de uma mulher brilhante (Jakobe).

2. O Colapso no Ápice

Sempre que o triunfo está garantido, Per encontra uma forma de destruir os laços. Ele não fracassa por falta de talento, mas por uma incapacidade psíquica de aceitar o bem-estar. O sucesso o obriga a confrontar a ideia de que ele “venceu” as sombras do passado, e o peso dessa liberdade é o que o esmaga.

3. O Retorno ao “Nada”

Assim como no texto de Freud, Per acaba se retirando para uma vida de isolamento e simplicidade ascética. O seu “fracasso” final é, na verdade, a única forma que sua mente encontra para pacificar a culpa e o conflito interno que o triunfo despertava.

Pontos de Reflexão

  • A Herança Psíquica: O filme ilustra que não basta mudar de cidade ou de classe social se o “tribunal interno” continua o mesmo.
  • A Autossabotagem como Defesa: Para Per, fracassar é uma forma de manter a lealdade inconsciente ao sofrimento da família.

O filme é uma excelente obra para observar como a neurose pode ser mais forte que a ambição, mostrando que o sucesso exige uma “autorização” interna que nem todos possuem.

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